Publicado originalmente em: www.ufrgs.br/comunicacaosocial/jornaldauniversidade/pagina4.htm
A ilustração utilizada para divulgar o seminário Riqueza e Desigualdade na América Latina causou um grande estranhamento e, em alguns casos, reações de aversão. Uma caveira, mesmo cravejada de diamantes, não traduz, para muitos, a ideia usual de riqueza e, Menos ainda, de desigualdade ou pobreza. O convencional seria um cartaz com imagens de pessoas pobres ou de condições deploráveis de vida, tais como moradias precárias, trabalhos insalubres ou situações de abandono. O mundo da pobreza aparece sempre em cenas pungentes, por vezes chocantes, em fotos nas quais, em alguns casos, o olhar não se sustenta. No Brasil, esse universo corresponde ao registro gráfico do que é comum observar-se nas ruas e nas favelas de todas as cidades.
As imagens da pobreza, ilustrando cartazes ebanners de seminários e congressos sobre as desigualdades, são de fácil obtenção. As pessoas representadas não exigem direitos autorais nem estão preocupadas em esconder sua situação; pelo contrário, deixando-se capturar na foto, esperam dar visibilidade à sua condição e situação e, assim, sensibilizar os outros.
A representação dos contrastes, da brecha social, dos abismos que separam pobres e ricos também é fácil conseguir. Imagens com mansões ao lado de barracos, com crianças esquálidas mendigando próximo a carros de luxo ou com catadores de lixo em frente a lojas para milionários reproduzem cenas comuns das metrópoles brasileiras. As diferenças são imensas, mas são interpretadas como realidades análogas a mundos distintos e desconectados, permitindo entender-se que os diferentes grupos sociais não fazem parte do mesmo sistema de dominação e dependência.
A ilustração da riqueza é muito mais problemática. Primeiramente, porque ela desperta mais admiração do que indignação. A riqueza é sempre relacionada ao sucesso, à fruição das boas coisas da vida, sem que haja associação entre a materialidade do luxo e os processos que permitiram a sua apropriação. Os verdadeiramente ricos utilizam sutis estratagemas tanto para mostrar como para esconder sua situação, expondo-a quando isso assegura a distinção prestigiosa e o poder, porém ocultando-a quando a posse da riqueza deve ficar ao abrigo dos olhares investigativos da Receita Federal ou da análise crítica da sociedade. Além disso, outras razões prosaicas impedem a divulgação de ilustrações da riqueza glamorosa: direitos autorais sobre imagens e impedimento expresso de utilizá-las para ilustrar qualquer evento que possa comprometer a dupla dimensão da riqueza como totem e tabu.
Damien Hirst é um dos mais controversos artistas contemporâneos. Suas pinturas, imagens, objetos e esculturas fizeram-no mundialmente célebre, e, com um provocativo e inteligente
sistema de promoção de obras não convencionais, Hirst bateu todos os recordes de vendas de obras de um artista ainda vivo. For the Love of God é identificada como uma escultura em platina cujo suporte é o crânio de um indivíduo que viveu na Inglaterra no final do século XVIII e início do XIX. Mede 28 por 40 cm e é incrustada com 8.601 diamantes perfeitos e “eticamente extraídos”. Seu custo de criação foi avaliado em 14 milhões de libras esterlinas. Foi vendida em 2007 na White Cube Gallery, de Londres, para um consórcio não identificado de compradores por 50 milhões de libras - o equivalente, na época, a 180 milhões de reais, superando o valor de aquisição de obras de expoentes clássicos da arte ocidental, tais como Rembrandt, Renoir ou Picasso.
Podem-se discutir os significados de For the Love of God no campo específico da arte contemporânea, focando sua originalidade criativa, seu caráter audacioso e provocativo de inovação, e os aspectos de fruição estética original, além do marketing proporcionado pelo escândalo incitado pela obra; mas não são essas as perspectivas e o contexto aqui relevantes. A arte contemporânea, condensação e consciência de circunstâncias e dimensões sociais extremas, permite outra interpretação.
For the Love of God pode ser considerada um ícone ou a metáfora das realizações materiais e simbólicas do capitalismo contemporâneo, representando algo equivalente a outras obras famosas da cultura norte-ocidental em seus respectivos tempos históricos. Por exemplo, a Capela Sistina pode simbolizar a glorificação do poder papal do século XVI; o retrato de Luis XIV, o Rei Sol, por Hyacinthe Rigaud, e a tela Sagração de Napoleão, de Jacques Louis David, respectivamente documentam o apogeu dos poderes absolutista e imperial; ou ainda o prédio do Museu Guggenheim, em Nova York, do arquiteto Frank Lloyd Wright, registra os princípios do capitalismo racionalista e pragmático de meados do século XX. Essas realizações estão associadas ao auge de um conjunto de circunstâncias políticas, culturais e econômicas, condensando num objeto, num prédio ou monumento, símbolos que traduzem capacidades, realizações, força e riqueza. Nesse sentido, as questões relativas ao julgamento estético podem ficar em segundo plano. O que interessa aqui é considerar o que elas revelam de contextos que dizem respeito à análise de condições e relações sociais.
A partir de meados dos anos 1980, a dinâmica e as estratégias da expansão capitalista reverteram o modelo que vigorou durante os chamados “30 anos gloriosos” (1945-1975), caracterizado por uma orientação macroeconômica keynesiana que resultou no Welfare State. Nos países economicamente avançados, o Estado de bem-estar foi construído graças à crescente participação da classe trabalhadora na distribuição de renda, com a massa salarial
elevando-se concomitantemente ao aumento de benefícios nas áreas de moradia, saúde, educação e aposentadoria.
Esse modelo inclusivo e socialmente mais justo foi revertido pelas práticas neoliberais, primeiramente no Chile, durante a ditadura de Pinochet, depois na Inglaterra, no governo de Margareth Thatcher, nos Estados Unidos, no período Reagan, e, em seguida, no restante dos países norte-ocidentais e em grande parte do Terceiro Mundo. As orientações econômicas referenciadas no Consenso de Washington alteraram a forma de intervenção do Estado e reduziram o poder dos sindicatos, abrindo caminho para a reversão de direitos coletivos arduamente conquistados ao longo século XX. Precarização crescente dos contratos de
trabalho, privatização dos sistemas de aposentadoria, liberdade para o capital explorar as populações vulneráveis, liberdade plena para o setor financeiro especulativo expandir-se e abolição de controles aduaneiros, garantindo ampla circulação de mercadorias e capitais, tiveram um resultado muito objetivo: redução da parte dos salários e dos rendimentos dos mais pobres e, consequentemente, aumento dos ganhos do grande capital. A acelerada
expansão econômica foi monopolizada por corporações cada vez maiores e mais internacionalizadas. Seu crescimento em escala planetária proporcionou a geração de lucros em um volume jamais visto na história do capitalismo.
O antagonismo capital vs. trabalho e a concorrência entre os diferentes capitais exigem a reaplicação permanente do excedente na esfera produtiva, porém, se os lucros crescentes forem constantemente reaplicados, haverá uma crise de realização. Em outros termos, havendo a geração de lucros desmedidos decorrente da superprodução de mercadorias e serviços, evidencia-se a contradição principal do sistema: como o excedente é apropriado por poucos, os demais, que tiveram perdas salariais e redução de benefícios indiretos, não têm poder de compra suficiente para absorver o que foi produzido. Isso causa, primeiramente,
a estagnação do sistema e, em seguida, seu colapso.
Várias estratégias podem ser adotadas para se evitar a crise. A mais simples seria a transferência de parte dos lucros para os trabalhadores, que teriam seu poder de compra ampliado; mais simples, porém incompatível com a lógica inexorável da apropriação privada da riqueza socialmente produzida. Outras soluções podem ser encontradas na destruição física de parte do capital produtivo ou na esterilização dos lucros em esferas não diretamente produtivas. Esta última possibilidade passou a ser fortemente utilizada nos primeiros sete anos do século XXI. Bens de uso pessoal de altíssimo luxo, serviços personalizados e exclusivos, viagens de executivos endinheirados ao espaço, iates, mansões etc. constituíram-se em alternativas aos limites do reinvestimento produtivo e à impossível generosidade.
O ano de 2007 foi o auge de um período da abundância apropriada por milionários e bilionários, o paroxismo da personificação da riqueza; 2007 foi o ano de venda da caveira de 100 milhões de dólares. For the Love of God se presta a um trocadilho fácil, mas que corresponde à dimensão icônica ou metafórica, reunindo significado e significante: For the Love of Gold, pelo amor do ouro, condensação da riqueza, entesouramento estéril, evocando a fruição sem limites e sem utilidade coletiva. Hirst poderia ter escolhido outro suporte para sua obra – uma mercadoria, um banal utensílio doméstico ou um instrumento de trabalho. Artista inteligente e sagaz, deliberadamente optou por uma caveira com um sorriso alucinado, expressando cinismo, voracidade e impiedade; caveira símbolo dos piratas saqueadores, caveira símbolo da morte. Numa obra genial, o artista criou algo que pode ser considerado alegoria ou metáfora máxima do capitalismo contemporâneo.